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Refugiado, zagueiro do Bahrein relata tortura e vive temor de voltar ao país

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A viagem à Tailândia deveria servir como uma lua de mel atrasada para o jovem jogador de futebol e sua mulher.

Mas ao desembarcar em um aeroporto de Bancoc na semana passada, Hakeem al-Araibi, um refugiado político do Bahrein que joga por um time de futebol de Melbourne, na Austrália, foi detido pelas autoridades de imigração tailandesas, que receberam um pedido de extraditá-lo para o Bahrein, onde Araibi diz ter sido torturado.

“Por favor, tenho medo de voltar ao Bahrein. Serei torturado de novo”, disse Araibi em uma entrevista por telefone, do centro de detenção do serviço de imigração tailandês em Bancoc.

No começo da noite de quinta-feira (6), Araibi disse ter sido informado por funcionários da imigração tailandesa de que deveria comparecer ao tribunal nesta sexta-feira (7). Organizações de defesa dos direitos humanos estão preocupadas com a possibilidade de que as autoridades da Tailândia estejam se preparando para deportá-lo.

“Queríamos ir às praias e a outros lugares maravilhosos”, disse Araibi sobre sua visita à Tailândia. “Mas só o que vi foi essa prisão da imigração”.

O caso dele é não só uma janela para o tratamento que estrangeiros vulneráveis podem receber na Tailândia, um país com o histórico de deportar solicitantes de asilo político, como também deve servir de indicador sobre a maneira pela qual a Fifa, a organização que comanda o futebol mundial e foi abalada por numerosos escândalos, está lidando com novas regras adotadas para proteger seus atletas.

“Que esse jogador esteja encarcerado vai servir como um indicador muito importante de se temos ou não um novo dia para os direitos humanos, na Fifa, ou se recuaremos ao velho sistema sob o qual aqueles que abusam dos direitos humanos escapam impunes de seus crimes, enquanto as vítimas são punidas”, disse Minky Worden, diretora de iniciativas mundiais na organização de defesa dos direitos humanos Human Right Watch.

A detenção de Araibi no aeroporto em 27 de novembro aconteceu em resposta a uma solicitação da agência policial internacional Interpol, com base em um mandado de prisão contra ele expedido pelo Bahrein, informaram as autoridades tailandesas.

Mas no começo da semana, o pedido da Interpol, conhecido como “notificação vermelha”, foi retirado, de acordo com funcionários da imigração tailandesa.

Não se sabe exatamente por que a notificação foi retirada. Mas pedidos como esses não têm por objetivo permitir que governos repressivos capturem seus oponentes políticos no exterior. Também não deveriam se aplicar a refugiados. Araibi tem status oficial de refugiado, na Austrália.

Mesmo assim, Busadee Santipitaks, porta-voz do Ministério do Exterior tailandês, disse que o caso contra Araibi prosseguia.

“Recebemos do Bahrein um pedido provisório de prisão e estamos no processo de considerar o assunto de acordo com as leis e regulamentos de nosso país”, ela disse.

“Ainda que a Interpol pareça ter retirado a notificação vermelha, o mandado de prisão contra ele em Bahrein ainda é válido”, disse o major-general Surachate Hakparn, que comanda o serviço de imigração da Tailândia.

O caso de Araibi precisa ser resolvido pelo sistema legal da Tailândia em 12 dias, ou até 14 de dezembro, porque não existe tratado de extradição entre seu país e Bahrein, disse o general Surachate.

“O tribunal tailandês tomará a decisão sobre enviá-lo como refugiado à Austrália ou devolvê-lo a Bahrein”, disse o general. “Não existe grande preocupação quanto a essa história porque nos limitamos a seguir a lei”.

Mas organizações de defesa dos direitos humanos se preocupam com a possibilidade de que um refugiado político esteja à beira de ser devolvido a Bahrein, um país que tem um longo histórico de perseguição aos oponentes da família reinante.

As Nações Unidas “continuam muito preocupadas” com o caso de Araibi, disse Cynthia Veliko, representante regional do Escritório dos Direitos Humanos da ONU para o Sudeste Asiático.

O zagueiro Araibi, 25, era um dos astros da seleção de futebol de Bahrein, mas se envolveu nos protestos da Primavera Árabe em 2011, quando centenas de milhares de cidadãos se manifestaram contra a família reinante do pequeno emirado do Golfo Pérsico, que serve de quartel-general à Quinta Frota da marinha dos Estados Unidos.

A campanha de repressão conduzida pela monarquia muçulmana sunita foi especialmente severa. Milhares de xiitas, que formam a maioria da população do país, foram detidos e torturados, dizem organizações de defesa dos direitos humanos.

No mês passado, três líderes xiitas da oposição em Bahrein foram sentenciados a prisão perpétua por espionagem, em um caso que a Anistia Internacional definiu como “uma farsa judicial”.

Em 2014, Araibi foi sentenciado a 10 anos de prisão, pela acusação de ter incendiado uma delegacia de polícia durante o movimento frustrado de protesto. Araibi afirmou que estava jogando uma partida de futebol, que foi transmitida pela televisão, no momento do suposto crime.

Mais tarde, Araibi acusou o xeque Salman bin Ebrahim al-Khalifa, membro da família reinante do Bahrein e presidente da Confederação Asiática de Futebol, de não agir em defesa dos atletas xiitas perseguidos por terem supostamente participado dos protestos.

“Eles me torturaram”, disse Araibi sobre seu tratamento pelas forças de segurança de Bahrein. “Queriam me ferir de forma a que eu não pudesse mais jogar futebol”.

Em 2016, o xeque Salman disputou a presidência da Fifa. No passado visto como um dos favoritos ao comando da organização, ele perdeu a disputa para o suíço Gianni Infantino, em meio a uma barragem de notícias negativas sobre o histórico de Bahrein quanto aos direitos humanos.

“Não só o xeque Salman perdeu a eleição por pouco como, no curso da disputa, o histórico deplorável do Bahrein quanto a abusos e torturas contra prisioneiros ganhou espaço nas primeiras páginas dos jornais, e continua a atrair atenção”, disse Nicholas McGeehan, pesquisador independente sobre os direitos humanos na região do Golfo Pérsico. “Ou seja, a sede de vingança do Bahrein é imensa”.

O xeque Salman, que não respondeu a pedidos de comentário, continua à frente da confederação asiática, e é vice-presidente da Fifa.

Um porta-voz da Fifa informou por email que a organização havia sido informada sobre “a situação urgente” de Araibi.

“A Fifa apoia os apelos para que as autoridades tailandesas permitam o quanto antes o retorno de Araibi à Austrália, onde ele hoje desfruta do status formal de refugiado”, afirmou a organização em comunicado.

A organização que comanda o futebol mundial vem sofrendo crises nos últimos anos, especialmente um escândalo de corrupção que resultou na queda de boa parte de sua liderança, em 2015.

Este mês, integrantes da seleção feminina de futebol do Afeganistão apresentaram queixa por abuso sexual sistemático da parte de homens que trabalham com a equipe como dirigentes e treinadores. A Fifa afirma estar investigando o caso.

Como resultado das controvérsias sobre os direitos humanos que cercaram a Copa do Mundo da Rússia este ano e Copa de 2022, planejada para o Qatar, a Fifa revelou novas regras cujo objetivo seria proteger melhor os jogadores e os denunciantes. Patrocinadores da organização vinham instando por essa mudança nas regras.

Brendan Schwab, diretor executivo da World Players Association, que representa os interesses de 85 mil atletas profissionais em todo o mundo, descreveu as reformas da Fifa como incipientes.

“As estruturas criadas, embora sejam revolucionárias, estão na infância”, disse Schwab, que é advogado trabalhista e ativista dos direitos humanos na Austrália.”Continuamos a encontrar casos em que a aplicação das regras depende totalmente da vontade política da liderança do futebol”.

Como jogador de futebol federado, Araibi deveria ser protegido pelas normas reforçadas de proteção aos direitos humanos adotadas pela Fifa, disse Schwab.

“Não é relevante que o Sr. Hakeem al-Araibi tenha ou não feito comentários críticos sobre um dirigente da Fifa”, ele disse. “O que é relevante é que ele é um refugiado que precisa ser protegido pelos líderes do esporte, detentores de imensos poderes”.

Diplomatas australianos conversaram com Araibi e estão apelando por seu retorno à Austrália, mas se recusaram a estender seus comentários sobre o caso, invocando considerações de privacidade.

A Tailândia não reconhece o status de “refugiado”, mas é signatária de duas outras convenções que as Nações Unidas afirmam se aplicar ao caso de Araibi: uma contra a tortura e a outra de proteção aos direitos civis e políticos.

A Tailândia vem sendo governada por uma junta militar há quatro anos, e extraditou membros da minoria muçulmana uigur para a China, onde organizações de defesa dos direitos humanos dizem que eles correm risco de tortura. Dissidentes chineses que buscavam refúgio na Tailândia também foram repatriados à força.

Em outubro, um tribunal tailandês ordenou a deportação de cerca de 70 cristãos e membros de outras minorias religiosas do Paquistão cujos vistos expiraram. Os paquistaneses afirmaram que temiam perseguição, se retornassem ao seu país.

O primeiro-ministro Prayuth Chan-ocha, que liderou um golpe militar em 2014 na Tailândia, visitou o Bahrein no ano passado. Sua contraparte no emirado, o príncipe Khalifa bin Salman al-Khalifa, foi citado por um jornal tailandês como tendo declarado que considera a Tailândia como seu segundo lar.

Na quarta-feira (5), o príncipe Khalifa foi a um evento na embaixada tailandesa em Manama, a capital do Bahrein.

Em 2014, a Tailândia, agindo a pedido da Interpol, entregou às autoridades do emirado o oposicionista Ali Ahmed Ibrahim Haroon, de Bahrein, que participou dos protestos da Primavera Árabe em 2011.

Representantes das Nações Unidas disseram que o tratamento recebido por Haroon em sua viagem de volta ao emirado foi tão tão brutal que ele teve de ser internado no hospital assim que chegou. Ele continua preso.

“Sabemos o que acontecerá com Hakeem caso ele seja repatriado”, disse Sayed Ahmed el-Wadaei, diretor de defesa dos direitos humanos no Bahrain Institute for Rights and Democracy, sediado em Londres. “Ele incomodou muita gente poderosa”.

Araibi disse que alguns de seus antigos colegas de time na seleção de Bahrein continuam presos.

“Não quero voltar ao Bahrein”, ele disse, do centro de detenção em Bancoc, com a voz trêmula. “Quero jogar futebol na Austrália.”

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