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Maioria dos empresários licenciados pela NBA paga para trabalhar

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Eram 10h02min em um dia ensolarado de inverno, na sala de ginástica da sede da Associação Nacional de Jogadores de Basquete em Manhattan, e dezenas de candidatos a credenciamento como agentes pelo principal sindicato de atletas do basquete profissional americano estavam acomodados diante de mesas dobráveis, para passar pelo seu primeiro exame em muitos anos.

Cópias do contrato coletivo de trabalho da NBA e dos regulamentos para o trabalho como agente lotavam as mesas. A prova permitia consulta. Alguns dos participantes disseram ter estudado por meses.

Preocupado com o despreparo de alguns agentes, o sindicato tornou o teste obrigatório em 2016. Cada candidato a agente credenciado precisa responder corretamente a pelo menos 42 das 50 questões, para aprovação.

O processo de certificação também inclui verificação de antecedentes e o pagamento de uma anuidade de pelo menos US$ 2,5 mil (R$ 9,4 mil) —uma soma muito maior do que a maioria das pessoas que estão fazendo o teste será capaz de ganhar com a representação de jogadores de basquete.

A NBA é um negócio muito próspero, e LeBron James está bem a caminho de criar um império empresarial de US$ 1 bilhão. Mas representar atletas em seus contratos com os clubes, em oposição a representá-los em seus contratos de patrocínio, muito mais lucrativos (para os agentes), não faz muito sentido, em termos econômicos.

É uma decisão tão ruim que leva a imaginar por que alguém a tomaria. Sessenta por cento dos agentes credenciados pelo sindicato não representaram qualquer jogador da NBA na temporada passada. E a maioria dos que representaram algum atleta atendia a reservas com pouco tempo em quadra.

Um punhado de agentes altamente poderosos manda na NBA. Nove agentes representam um quarto dos jogadores da liga, e 27 deles respondem por metade do total de jogadores. De acordo com o site RealGM, Mark Bartelstein representou 26 atletas na temporada passada. Jeff Schwartz, o segundo colocado, representou 24 jogadores. Entre os clientes dele estão Andre Drummond, DeAndre Jordan, Harrison Barnes, Kemba Walker, Kevin Love e LaMarcus Aldridge.

Schwartz estima que todos esses agentes estejam em busca dos 150 jogadores da liga que têm o potencial de lhes propiciar lucros. “Não faz sentido algum”, ele diz.

Em janeiro, 174 pessoas fizeram o teste para credenciamento como agentes; 93 foram aprovadas. Eu fui um delas.

O sindicato dos jogadores gentilmente permitiu que eu fizesse o exame, a fim de compreender melhor o processo que transforma alguém em agente, mas a despeito de ter sido aprovado, me limitarei a dizer que pretendo manter meu emprego regular. Por enquanto.

Apenas um terço dos cerca de 450 que contam com credenciais do sindicato se tornaram agentes nos dois últimos anos. Os números são desanimadores.

Um exemplo é Rebecca Adelman, 53, advogada de Memphis que conseguiu seu credenciamento em janeiro.

Adelman tem um escritório de advocacia e trabalha no ramo há quase 30 anos. Seu escritório já representou jogadores de basquete em suas empreitadas de negócios. Depois de se credenciar, ela criou o MPower Sports Group e contratou um diretor de operações de basquete para a companhia.

Ela diz ter participado de uma reunião com um jogador que foi selecionado na primeira rodada do draft, alguns meses atrás. Ele preferiu uma agência maior. Adelman representa um atleta que em breve estará jogando fora dos Estados Unidos. Mesmo trabalhando dia e noite, encontrou dificuldades para se estabelecer.

“O longo prazo parece ser mais longo do que eu imaginava”, ela disse.

As desvantagens que ela precisa enfrentar são inúmeras, a começar pela mais fundamental: a forma pela qual os agentes são pagos. O sindicato limita a remuneração que os agentes podem receber por negociar contratos com a NBA a 4% do valor total do contrato. Para alguns contratos, o limite é ainda mais baixo.

Se Adelman negociar um contrato que pague o salário mínimo da NBA a um atleta estreante, o máximo que poderia faturar seria US$ 16.769, antes dos impostos. Mesmo que ela tivesse representado um dos jogadores de posição mais alta no draft da NBA em junho, e obtido o melhor contrato possível para ele —o que seria uma façanha para uma agente iniciante—, sua remuneração pelo primeiro ano do contrato seria de apenas US$ 18.593.

As comissões sobre os contratos dos atletas novatos são tão baixas que a maioria dos agentes estabelecidos as dispensam, para agradar os jogadores e continuar a representá-los em seus segundos contratos, muito mais lucrativos, ou em seus contratos de patrocínio.

Dos 30 jogadores selecionados na primeira rodada do draft de 2018, 24 são representados por agências que negociaram, cada qual, centenas de milhões de dólares em contratos. Outros cinco são representados por agências menores, com alguns poucos atletas da NBA como clientes. Um, Mo Bamba, a sexta escolha do draft, não tem agente. Nenhum é representado por um agente que tenha sido credenciado nos dois últimos anos.

Qual é o caminho para que alguém se torne um agente poderoso? Schwartz passou uma década trabalhando para o conglomerado de esportes e entretenimento IMG and Artists Management Group, como agente de tenistas. Em 2002, ele criou a Excel Sports Management como agência para atletas do basquete, ainda que a empresa mais tarde tenha vindo a representar jogadores de outras modalidades.

Schwartz disse que os agentes menos conhecidos sempre correm o risco de perder atletas para os grandes conglomerados, e exatamente em seus anos de maior poder de faturamento. “Hoje em dia é muito mais difícil ser uma agência especializada em basquete do que era o caso 20 anos atrás”, ele disse.

Mas a explosão nos salários e os megacontratos com fabricantes de calçados tornam o negócio irresistível. Os contratos cresceram a tal ponto que muitas pessoas que acreditam ter um relacionamento especial com um atleta jovem veem o potencial de lucrar com isso.

Mas dos cerca de 160 agentes que foram credenciados nos dois últimos anos, menos de 10 vieram a representar um jogador de basquete. E.J. Kusnyer é um deles. Ele foi o agente secundário no contrato recentemente assinado entre Glenn Robinson 3º e o Detroit Pistons, e representa Ben Moore, que assinou um contrato alternativo com o Indiana Pacers na temporada passada. Embora Kusnyer, 32, tenha começado como agente independente, ele conquistou algum sucesso formando parcerias com outras pessoas novas na profissão.

Kusnyer jogou basquete universitário pela Universidade Mercier e profissionalmente em cinco países, antes de uma lesão que o forçou a encerrar a carreira em 2015. Em lugar de tentar um retorno às quadras, ele voltou aos Estados Unidos com a mulher e o filho pequeno do casal, e encontrou emprego como recrutador na Worldwide SM, que representa principalmente atletas europeus.

Kusnyer negociou seus próprios contratos, em seus quatro anos finais na Europa. Trabalhou por meses para provar suas origens húngaras, a fim de obter um passaporte de um país membro da União Europeia, o que lhe permitia jogar sem ser incluído na cota de estrangeiros que os times podem inscrever.

Ele não era credenciado quando trabalhava na Worldwide SM, e por isso não podia representar atletas que estivessem assinando contratos com a NBA, que é o que desejava fazer. Em 2016, fez o exame de credenciamento como agente e começou a trabalhar por conta própria.

Ele não demorou a encontrar agentes com ideias parecidas e está finalizando a formação de uma agência com Jelani Floyd, Daniel Poneman e Mike Naiditch, todos os quais dotados de fortes conexões com Chicago. Eles descrevem sua decisão como uma maneira de ajudar mais os atletas que representam.

“Todo mundo diria isso, mas o que procuramos são caras legais que se preocupem com seu legado e coisas assim, com usar a plataforma que terão e sua influência para fazer o bem”, disse Kusnyer sobre os atletas que sua agência gostaria de assinar.

Mas mesmo o modesto sucesso que ele conquistou é uma raridade.

Estima-se que entre 20 e 40 agentes deixem de pagar suas anuidades, a cada ano, permitindo que suas credenciais expirem porque não veem lógica em pagar milhares de dólares em taxas quando não têm clientes. O sindicato também está formalizando esse processo, e requer que qualquer agente que não tenha negociado um contrato com a NBA em cinco anos faça ou refaça o exame, como uma maneira gentil de indicar que a profissão talvez não seja para ele.

“Você iria a um médico que diz que não atende um paciente há cinco anos, ou a um advogado que não teve clientes em cinco anos?”, perguntou David Foster, diretor jurídico associado do sindicato dos jogadores. “É a mesma coisa”.

Mas embora o sindicato possa tornar mais difícil o credenciamento para se tornar agente, e possa encorajar os profissionais que não encontraram sucesso de que talvez não valha a pena insistir, na verdade exerce pouca influência na seleção de quem se torna agente, e de quem encontra sucesso na profissão. O exame garante que cada agente tenha conhecimentos funcionais básicos do contrato coletivo de trabalho, mas agentes continuam a telefonar para o sindicato todos os dias em busca de orientação legal quanto a contratos.

Além disso, jogadores de 19 anos de idade não escolhem um agente com base em sua compreensão da regra Arenas ou das cláusulas de responsabilidade salarial. Em lugar disso, escolhem um agente com quem estabeleçam um bom relacionamento e que, acreditam, possa lhes oferecer a melhor ajuda para realizar quaisquer que sejam suas ambições. E um agente como esse em geral é alguém que já teve algum sucesso.

Mas enquanto os jogadores da NBA continuarem a ganhar centenas de milhões de dólares, haverá pessoas que acreditam na possibilidade de ficar com uma fatia.

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