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Críticas de ídolos deixam Mourinho em posição desconfortável

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Por uma vez, José Mourinho escolheu segurar a língua. Usualmente, ele não é o tipo de sujeito que deixa barato quando é criticado, ou que escolhe não rebater. Mas ele resistiu: “não estou interessado”, disse. Sua expressão era a de um homem cujo apetite por brigas havia por fim se esgotado.

A pergunta – como vem sendo frequentemente o caso nesses últimos e infelizes meses em Old Trafford – se referia a uma declaração de um ex-jogador do Manchester United. Dessa vez – como vem acontecendo repetidamente -, o responsável foi Paul Scholes, parte do quadro de lendas do clube, aposentado recentemente e agora ganhando a vida como comentarista de televisão.

Antes do empate chato e sem gols entre o United e o Valencia na Champions League, horas antes – o quarto jogo consecutivo da equipe sem vitória -, Scholes havia declarado que o comando de Mourinho estava se tornando cada vez mais “embaraçoso” para o clube.

As brigas constantes com os jogadores atuais – especialmente Paul Pogba – e com a hierarquia do United, somadas a resultados desanimadores, disse Scholes, significavam que Mourinho “deve se considerar sortudo por ainda ter emprego”.

Scholes nunca pareceu muito plausível como comentarista; ele era conhecido por sua aversão a atenções, durante sua reluzente carreira em campo: raramente dava entrevistas, raramente buscava aparecer. Mas provou ter talento natural para sua nova função: franco, destemido, sem rodeios. A “boca de Mourinho está fora de controle”, ele disse. Scholes se declarou surpreso por o treinador português ter sobrevivido à derrota diante do West Ham United no final de semana anterior.

Foi sobre esses comentários que Mourinho foi questionado depois do empate com o Valencia, por jornalistas interessados em uma de suas tiradas cortantes, ou em fomentar uma rivalidade. Muitas dessas surgiram, nos últimos meses: Mourinho, que nunca foi conhecido por evitar conflitos, está em guerra aberta com as polpudas fileiras dos comentaristas de futebol britânicos – as legiões de ex-jogadores agora empregados pela mídia como observadores, analistas e palpiteiros – praticamente desde o momento em que retornou à Premier League em 2013.

Este ano, por exemplo, o treinador: deu a entender que Scholes só criticava o desempenho de Pogba porque este “ganhava melhor” do que seu predecessor no meio de campo do United (janeiro); lastimou as “centenas” de comentaristas com “históricos excelentes e conhecimento de futebol” que estavam “recebendo milhões” mas escreviam “coisas que não são verdade” (fevereiro); deu a entender obliquamente que Gary Neville, antigo capitão do United, era um dos sujeitos pagos por suas opiniões que “quando foi treinador não foi capaz de resolver seus problemas” (março).

Em maio, Neville voltou a ficar na mira de Mourinho: “Algumas pessoas bem conhecidas no futebol deixaram de ser jogadores e se tornaram treinadores fracos e frustrados, e retornaram ao futebol com o status de comentaristas de primeira linha”, ele disse em entrevista ao veículo português Record. “As pessoas se lembram do que eles foram como jogadores e não do que foram como treinadores. São vozes que influenciam a opinião pública”.

Mourinho, que tirou licença no verão para trabalhar como comentarista para a RT, a TV estatal russa, durante a Copa do Mundo, vem se mostrando igualmente combativo na nova temporada.

Em setembro, ele indicou que “alguns dos garotos estão realmente obcecados por mim, e alguns deles têm o problema, creio, de mentir compulsivamente” sobre a maneira pela qual o treinador emprega Marcus Rashford, jovem atacante do United e da seleção inglesa.

A declaração mais recente de Scholes deveria ter servido como catalisadora para a prestação de outubro no livro-caixa de queixas, mas Mourinho preferiu não morder a isca. “Não estou interessado”, disse Mourinho, assim que o nome de Scholes foi mencionado em sua entrevista pós-jogo. “Não estou interessado”, ele repetiu, quando o teor exato do comentário lhe foi informado. “Não estou interessado”.

Seria compreensível que Mourinho perdesse a paciência diante desse poço sem fundo de críticas, desse ciclo interminável de acusações. Ele raramente, se alguma vez, instiga essas controvérsias; na verdade, sua maldição é ser sempre o alvo delas. Seus detratores têm o benefício da distância, de julgar retrospectivamente, além disso; Mourinho já disse diversas vezes que ninguém jamais perdeu um jogo em um estúdio de televisão.

Mas é difícil evitar um sentimento de ironia, ao ver Mourinho cercado por um pelotão de comentaristas, todos concentrados ferozmente em suas deficiências. Afinal, por muito tempo ele sentiu que seus times não eram devidamente representados na mídia.

Na primeira temporada de sua segunda passagem pelo Chelsea, Mourinho se queixou de que havia “muita gente na televisão, mas ninguém do Chelsea”. Ele citou uma lista de antigos jogadores associados ao Liverpool – clube pelo qual ele alimenta um desdém inconfundível há muito tempo – e ao Manchester United. E esses clubes recebiam tratamento melhor que o Chelsea na mídia, argumentou. “Não temos representante”, disse.

Semanas mais tarde, em entrevista à BBC, Mourinho propôs uma explicação mais completa. Ele disse acreditar que a maioria dos comentaristas fossem “honestos, e profissionais em seu trabalho”, mas que, “em situações duvidosas”, eles não eram “capazes de esconder as cores de seus corações”. O treinador questionou se não seria bom ter “um par de comentaristas do Chelsea”, para ajudar a corrigir esse desequilíbrio.

Mourinho não está sozinho em sentir que esse é o papel primário dos ex-jogadores empregados pela mídia: que eles existem acima de tudo para defender os interesses dos clubes pelos quais um dia jogaram.

Que antigos jogadores do Liverpool, United e Arsenal – presenças constantes na TV como Neville, Rio Ferdinand, Jamie Redknapp e Ian Wright – dominam as telas é algo que não escapou à atenção dos rivais de seus antigos times na Premier League. Muitos executivos e treinadores sentem que esses clubes recebem tratamento preferencial por causa disso; ou, mais exatamente, que outros clubes recebem menos atenção do que mereceriam, por causa disso.

O Manchester City, por exemplo, espera que diversos integrantes de seu primeiro time vitorioso na Premier League se tornem comentaristas ao deixar os gramados, para representar a equipe; o clube já conversou com Pablo Zabaleta, Vincent Kompany e Gareth Barry a fim de determinar se eles teriam interesse em trabalhar na mídia.

Mas é difícil saber se esse plano vai funcionar. Os comentaristas mesmos não veem seu papel primordial como o de defender seus ex-clubes; Mourinho pode acreditar que eles não são capazes de “esquecer as cores de seus corações”, mas eles afirmam se esforçar com  propósito de fazer exatamente isso.

“Estou sempre muito consciente de que, se estou comentando um jogo do Chelsea, pelo menos 50% dos espectadores não querem que o Chelsea vença”, disse Graeme Le Saux, antigo zagueiro do Chelsea que agora trabalha para a NBC Sports. “Esforço-me para ser justo em minhas críticas e nos meus elogios, para ser objetivo e imparcial. Dessa forma, o que você diz tem mais peso”.

A NBC concorda com essa opinião. Le Saux recorda que, em seu primeiro dia na rede, Pierre Moossa, o produtor encarregado das transmissões da Premier League, lhe ofereceu uma lista de coisas que ele deveria fazer e evitar, em seus comentários: não especular sobre lesões, não mencionar fontes a não ser que tivesse certeza de sua credibilidade. Uma das recomendações mais importantes, disse o comentarista, foi a de não se referir a um antigo clube como “nós”.

“Nada é pior que isso”, disse Le Saux. “Ouvi essa apresentação seis anos atrás, e obviamente ela ficou em minha memória”.

Jamie Carragher, antigo zagueiro do Liverpool que hoje trabalha para a Sky Sports, diz que a tentação na verdade é a oposta: ser mais exigente, e ficar menos satisfeito, com os esforços atuais de seu antigo clube.

“Eu fico muito preocupado quando me chamam de parcial”, ele disse. “O ideal é tentar não pensar demais nisso, e dizer o que você acredita, mas você pode exagerar nas críticas ou economizar nos elogios, porque não quer ser acusado de parcialidade”.

Na temporada passada, Carragher comentou dois jogos do Liverpool bem no começo do campeonato – “partidas em que eles tinham 70% de posse de bola e o adversário só ficava assistindo” – e lembra de ter sido criticado por “falar demais” do Liverpool.

“Depois que você comenta que o outro time está organizado de tal maneira defensivamente, não resta muita coisa acrescentar”, ele disse. “Lembro-me de ter ficado frustrado, e com vontade de comentar jogos diferentes, jogos menos dominados por um só time”.

Talvez Mourinho esteja experimentando um corolário desse desejo dos analistas de provar objetividade. Talvez, indicou Le Saux, haja mais sentimentos envolvidos. “Aqueles jogadores estão vendo a deterioração de algo que ajudaram a construir”, ele disse. Certamente não é difícil acreditar que Scholes e outros levem os problemas do United para o lado pessoal.

Mas existe outra verdade, mais simples. Há uma maneira de amenizar os ataques dos comentaristas, de embotar suas armas. “Se você está ganhando e jogando bem, não há causa de preocupação”, disse Le Saux. Até que Mourinho encontre uma maneira de fazê-lo, ele continuará a ter de enfrentar esse tipo de batalha, e a sentir que os ferimentos mais dolorosos continuarão a ser infligidos por fogo amigo.​

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