Página Inicial Entretenimento Do bar da novela à sacada de Michael Jackson: conheça os efeitos das produções audiovisuais no cotidiano de Salvador

Do bar da novela à sacada de Michael Jackson: conheça os efeitos das produções audiovisuais no cotidiano de Salvador

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Início da noite no bairro do Santo Antônio. Os barzinhos da Cruz do Pascoal, em frente ao Plano Inclinado Pilar, estão abertos e começam a receber clientes com o avançar das horas. Há cerca de três  meses eram os caminhões e as equipes de produção da novela Segundo Sol, que iam aos poucos chegando. “O movimento para as gravações começava por volta de meia-noite e continuava até de manhã. Tinha o pessoal que vinha antes com as vans, os carros, e alguns curiosos ficavam acompanhando”, diz Raimundo José, 45 anos, garçom do Recanto do Pascoal, que fez bico como figurante em algumas cenas. De acordo com ele, quase todas as pessoas que chegam ao bairro e sentam no boteco  perguntam: “Onde foi gravada a novela?”.  

A região do Centro Histórico de Salvador é muito frequente como cenário de produções audiovisuais. Um passeio que sai do Largo do Santo Antônio, passa pela ladeira do Carmo e vai até o Terreiro de Jesus percorre mais de uma dezena de locações de filmes, clipes, telenovelas e séries. Alguns desses lugares tiveram tanta visibilidade, a partir da presença nessas  obras de ficção, que se  tornaram pontos turísticos e/ou  lugares constantemente visitados. 

São exemplos disso a escadaria do Passo, presente no filme de Anselmo Duarte e na minissérie de Tizuka Yamasaki  O Pagador de Promessas (adaptações do livro de Dias Gomes); o Bar do Calçadão, muito mais conhecido como Bar de Neuzão, visto no longa-metragem  Ó Paí, Ó, de Monique Gardenberg; e a famosa sacada onde Michael Jackson aparece no videoclipe de They don’t  Care About Us, dirigido pelo cineasta  Spike Lee e   gravado no Pelourinho  com  o Olodum. 

Segundo Ana Camila Esteves, pesquisadora de narrativas urbanas e cinema na Universidade Federal da Bahia, o audiovisual se aproxima da literatura ao construir “imaginários” sobre os lugares e as suas características, mas tem a vantagem de representar e, ao mesmo tempo, mostrar os espaços da  cidade. “A criação de narrativas ficcionais, a partir de espaços que existem, faz com que o outro, que não conhece, tenha uma outra experiência, audiovisual, com aquele espaço”, explica.

Mais de 50 anos após a estreia de O Pagador de Promessas,  muitos turistas ainda  vão conhecer a Igreja do Santíssimo Sacramento da rua do Passo pensando que se trata, na realidade,  da Igreja de Santa Bárbara, por conta do que é exibido na  trama do  filme. 

O administrador Anfilófio Magalhães transformou a sala de casa em camarim para o elenco da minissérie O administrador Anfilófio Magalhães transformou a sala de casa em camarim para o elenco da minissérie “O Pagador de Promessas”, no final dos anos 1980

Na história, o personagem principal sobe a escadaria carregando uma cruz para pagar uma promessa   à  santa.  “A Igreja de Santa Bárbara é de outra irmandade, mas já quiseram, inclusive, mudar o nome”, diz o administrador Anfilófio Magalhães, 65, morador do Passo  e vizinho  da igreja há mais de 40 anos. 

Ele não chegou a acompanhar as filmagens do longa de 1962, premiado  com a Palma de Outro no  Festival de Cannes, na França; mas  na minissérie, no final dos anos 1980, colaborou em muitos momentos, inclusive cedendo a sala de sua casa como base de auxílio para a maquiagem, troca de roupa e ponto de encontro da equipe da produção. 

“Tinha muita gente envolvida, o pessoal ficava andando pelo bairro. A gravação de um filme ou uma novela muda muito a rotina porque vem gente de fora, aquece o comércio, tem os figurantes”, diz Magalhães, como é conhecido entre os vizinhos de  bairro. O legado deixado por essas produções, amiúde, é a expansão do turismo – que às vezes ocorre imediatamente à divulgação e exibição, às vezes  somente depois de alguns anos ou décadas.  

“Além da confusão sobre a igreja, que ainda gera essa dúvida,  se é ou não de Santa Bárbara, a escadaria se propagou no mundo inteiro através do filme. Vem gente de todos os lugares querendo conhecer”, diz o morador. Até o  show do cantor e compositor Gerônimo, que acontecia toda terça-feira (tradicionalmente) e lotava a  escadaria, era intitulado O Pagador de Promessas e também prestava homenagem ao aclamado longa-metragem brasileiro.  

Averiguando os cenários

Em relação a  Segundo Sol, um movimento diferente  tem acontecido. Alguns moradores dizem ter percebido que o piso da rua, nas cenas da novela,  é de paralelepípedo, enquanto o original é de asfalto. “Quando vi as pedras na televisão, achei estranho. Mas depois lembrei que tem a cidade cenográfica lá no Rio de Janeiro”, conta Rita Lélis, 51, comerciante e moradora do Santo Antônio. 

Como afirma Ana Camila, que atualmente estuda  o cinema feito em  países africanos, “quando as produções são aqui em Salvador, a gente se coloca mais na posição de averiguação, se é isso mesmo, se está bem representado. As pessoas ficam na defensiva. A  gente viu isso na estreia de Segundo Sol”.

Ao mesmo  tempo, há também as pessoas de outros lugares, que não conhecem e, portanto,  relacionam-se apenas  com o que é apresentado na tela.  “Essas provavelmente  vão pensar: ‘Salvador é assim’. Tais  produções têm esse poder   e, na televisão, o impacto é muito  grande”, complementa a pesquisadora.  De acordo com o grau de visibilidade, a repercussão é menor ou maior.   

O Bar Cruz do Pascoal serviu de cenário para o Bar do Caranguejo, da novela Segundo Sol O Bar Cruz do Pascoal serviu de cenário para o Bar do Caranguejo, da novela Segundo Sol

As filmagens  também podem modificar, mesmo temporariamente, o cotidiano dos bairros de um modo direto. No Santo Antônio, por exemplo, a novela Segundo Sol é assunto geral: nas ruas, em  botecos,  cafés,   padarias e pousadas. Moradores orgulham-se de fotografias com atores e da experiência de  acompanhar, mesmo de longe, as gravações. Alimentam histórias que se desdobram disso.       

O Bar Cruz do Pascoal serviu de cenário para o bar do caranguejo  da novela e, em seguida, fechou as portas por 40 dias. Os comentários já correram soltos. “Ganhou tanto dinheiro com a locação que deu férias para todo mundo”, brinca um comerciante vizinho.

 Daniel Araújo, 43, gerente do bar, fala que o espaço já tinha sido antes a locação da série O Canto da Sereia. “Depois de Segundo Sol, veio muita gente para cá. Acho que algumas pessoas em Salvador só têm assistido porque tem a cidade”, opina. 

Sobre o motivo da temporada sem abrir, o rapaz dá risada e revela  que, pelo contrário,  “é consequência da baixa estação”.  Porém acredita que o verão será  melhor  e atribui tal previsão ao resultado da audiência da novela: “A rua sai todo dia em Segundo Sol. Quem é de fora vai querer conhecer”, afirma.

 A propósito  dessa capacidade de estímulo à atividade turística, por meio da visibilidade alcançada por  lugares     presentes em produções audiovisuais, sobretudo em Segundo Sol, a Secretaria de Turismo do Estado da Bahia anunciou, durante as comemorações do 2 de Julho, o projeto Bahia Cenário de Novela. 

Conforme a Setur,  a  proposta, ainda em construção,  visa englobar as 13 zonas turísticas baianas, entre elas a de  Salvador. “Vamos trazer turistas brasileiros e,  depois, se a novela for exibida no exterior, a meta será a atração de  estrangeiros também”, afirma, em nota,  o secretário estadual de Turismo, José Alves.       

Descendo para o Pelô

Nem tudo, porém, se deve ao presente. Há mais de 20 anos, num sábado de 1996, o Pelourinho parou. As ruas  foram fechadas e o policiamento reforçado para a gravação do videoclipe They don’t  Care About Us, de Michael Jackson –   um dos maiores astros da música pop mundial, falecido em 2009. “Foi um dia atípico, uma  loucura. Cheguei a vê-lo”, lembra o morador e artista plástico Carlos Simões,   58 anos.  

Carlos Alberto é o locatário do casarão onde Michael Jackson gravou o clipe de They don’t Care About Us: cobra R$ 5 pelas fotografias na fachada Carlos Alberto é o locatário do casarão onde Michael Jackson gravou o clipe de They don’t Care About Us: cobra R$ 5 pelas fotografias na fachada

Uma multidão, no dia da gravação, tomou o bairro e os seus arredores. O cantor não chegou a visitar muitos lugares, mas um, especialmente, tornou-se emblemático. A sacada do casarão defronte ao Largo do Pelourinho, onde o artista aparece no produto audiovisual. Depois disso, a associação entre aquela casa e Michael Jackson somente se intensificou com os seus usos, com a relação dos fãs e com o passar dos anos. 

No térreo, atualmente, funciona uma lojinha de souvenir para turistas e demais passantes. O atrativo mesmo, no entanto, é o segundo andar. Ou melhor, a oportunidade de subir e pisar no mesmo chão que o astro e ainda fazer uma fotografia. 

A estudante  Jéssica de Assis, 14 anos,  vai, em média, três vezes por semana no local. “Meu pai me apresentou Michael  quando tinha 4 anos e virei fã. Já pensei em morar aqui no futuro, mas a minha relação com o Pelourinho só existe por causa dele. Até do Olodum só gosto por causa de Michael. Quando venho aqui, às vezes fico triste, porque ele morreu, e feliz por estar onde ele passou”.

O locatário do espaço, Carlos Alberto, 55 anos, logo quando abriu a loja começou a receber muitos pedidos de clientes para visitar a sacada. Teve então a ideia de complementar a receita cobrando o que chama de “valor simbólico”, hoje de R$ 5. É possível também comprar um objeto do mesmo preço e conseguir  o livre acesso ao avarandado. A iniciativa do comerciante  coincidiu com o período da morte do artista. 

“Essa casa era de um italiano e, na época em  que Michael gravou, funcionava o cartório de dona Lina. O aluguel custou R$ 2 mil para a gravação. Depois  que aluguei, conheci toda a história”, diz, enquanto aperta play, em looping, para exibir o videoclipe. “Acho que sou a pessoa que mais ouviu  essa música no mundo”. Na época da Copa do Mundo, ele mudava de canal apenas para saber os resultados  dos jogos. 

 “Isso aqui nunca mais vai ser a mesma coisa. Já apareceu até fã querendo alugar o quarto para dormir, pediu para eu escolher o preço, mas disse que não poderia, pois nem água tinha. Tenho muito material, fotos, reportagens, chaveiros, a camisa do Olodum igual à dele. Acho que também por isso vem muita gente”, avalia o comerciante, que em seguida  conta que na  última quinta de outubro  fãs regularmente se  reúnem para dançar e cantar ali em frente, sem um marco aparente.  Embora a   empresa proprietária  já tenha  colocado  o casarão à venda, segundo Carlos, por cerca de R$ 1,2 milhão,  não apareceram  muitos interessados, provavelmente por conta do preço  e do estado de conservação precário do local.

Mais para baixo,  também no  Largo do Pelourinho, o famoso Bar de Neuzão é outro espaço no qual a fama  conquistada no audiovisual  reverbera no cotidiano.  Alguns clientes dizem  que o dono não gosta  e chega a  reclamar  da  associação entre o  Bar do Calçadão e o do filme Ó Paí, Ó. Entretanto, o  empresário Ricardo Matos, 52, demonstra uma  posição diferente dos  “boatos” e  afirma  que o vínculo é  “muito bom”, sobretudo do ponto de vista do comércio. “Ajudou na fama do bar. Durante um tempo fazia propaganda e cheguei a colocar a música (I Miss Her, do Olodum) e o restante da trilha para tocar aqui”, conta o proprietário do boteco.  

“Os turistas são os mais  atraídos. Tenho uma cliente que vem de Porto Seguro passar a tarde aqui, pede para colocar as músicas e fala de Ó Paí, Ó. No fim do  dia, volta. Apesar do nome diferente na razão social, aqui é o Bar de Neuzão”.

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