Página Inicial Entretenimento Concentração e resistência: modelos vivos falam sobre as alegrias e desafios da atividade

Concentração e resistência: modelos vivos falam sobre as alegrias e desafios da atividade

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Atenção. Aula de modelo vivo. Bata antes de entrar”. O aviso está preso à porta de uma das salas da Escola de Belas Artes (EBA) da Universidade Federal da Bahia, no Canela. Um armário de madeira estrategicamente localizado na lateral faz com que o visitante curioso se depare apenas com o professor que estiver dando a aula.  É preciso dar uns passos à frente e desviar o olhar para o lado para avistar o tal modelo. Ou dois, como era o caso naquele dia. Uma mulher e um homem abraçados e imóveis miravam placidamente o além, iluminados por uma luz amarelinha. “Estão com cara de comercial de margarina”, sentenciou uma aluna.

Semanas antes, estavam ali nus, como vieram ao mundo, mas como aquela era uma aula de retrato, para que a turma atentasse aos seus rostos, especialmente, permaneceram vestidos. Depois de meia hora concentrados na pose, fazem um intervalo para se alongar.

Foi quando Amanda Narici, 28, pôde contar que começou a trabalhar como modelo vivo em 2014. Um artista a convidou para que posasse para ele. “Por ser uma mulher fora do padrão da moda, quis repensar a relação com meu corpo. Queria me desnudar para mim mesma”, conta. E emenda, categórica:  “Corpo não é só sexo. Carrega a bagagem de uma história”.

Aluna da EBA, Amanda foi chamada para ser modelo viva também na faculdade. E aí veio a dificuldade adicional de se despir para colegas seus. “Teve um estranhamento no início, mas não durou mais que cinco minutos”, ri. “Logo eles pensaram: “Ah, é só Amanda ali. É um objeto artístico’”.

O maior tempo em que permaneceu paradinha numa mesma posição foi por uma hora e 10 minutos. Por isso, diz, a atividade não é para qualquer pessoa. “É preciso ter muita consciência corporal e saber que você vai lidar com a dor”.

A seleção para os modelos  da escola acontece por meio de um edital. Todos os meses, os modelos recebem uma bolsa, no valor de R$ 100 por aula.  Amanda conta que o dinheiro a ajuda “bastante” a se manter na faculdade.

Amanda e Giuliano, estudantes da EBA, modelando na aula de retrato. Foto: Luciano Carcará / Ag. A TARDE Amanda e Giuliano, estudantes da EBA, modelando na aula de retrato. Foto: Luciano Carcará / Ag. A TARDE

Guliano Paiva, 38, que estava ali abraçado a Amanda, também é aluno da universidade – está cursando o BI de artes. Virou modelo vivo há um ano e meio. No começo, ficou tenso, mas hoje acha relaxante o tempo que passa ali parado. “Eu medito, penso na vida… É quase uma terapia”.

Nos intervalos, ele gosta de espiar o que os alunos estão fazendo, para observar como o enxergam e como desenham. “Tinha uma preocupação com o corpo no começo, se tava gordo ou magro, mas já vi que pode ter um pneuzinho”, ri.  

Bico

No ano passado, a Escola de Belas Artes completou 140 anos. Quando estava abrigada no Centro Histórico, seu lugar de nascimento, eram as mulheres dali do entorno, no Pelourinho, que faziam as vezes de modelos vivos. Muitas delas iam até lá escondidas do marido, conta Nanci Novais, diretora da escola. “Eram mulheres simples, que faziam este serviço como um bico para ajudar em casa”.

Nas paredes da EBA,  uma e outra ainda exibe-se languidamente, compondo um acervo de obras do século XIX e XX que retratam nus. A maioria dos registros masculinos do período foi feita por alunos da escola em cursos no exterior, já que eram proibidos por aqui, para não chocar as alunas da época.

Num período mais recente, os modelos vivos sumiram todos, homens e mulheres. Quando o professor Mike Sam Chagas estudou na EBA, no começo dos anos 2000, não teve aulas com eles. “Era um período da arte moderna, abstrata, não se buscava tanto o exercício da reprodução. Hoje, com a valorização do hiperrealismo, estão de volta”.

Desde 2016, ele está à frente da disciplina na qual atuam os modelos. “Eles não precisam ser musculosos ou magros. Na verdade, quanto maior a variedade de biotipo, melhor”.

Nos séculos XIX e XX, retratos de homens nus eram feitos por estudantes da EBA em cursos no exterior para não chocar as alunas. Foto: Luciano Carcará / Ag. A TARDE Nos séculos XIX e XX, retratos de homens nus eram feitos por estudantes da EBA em cursos no exterior para não chocar as alunas. Foto: Luciano Carcará / Ag. A TARDE

Pelo visto, os tempos mudaram, porque não foi bem isso que Bráulio Santana, 39, ouviu quando pisou pela primeira vez na EBA, em 2004,  para trabalhar como modelo vivo. “O professor disse que eu precisava estar magro, bem traçado”. Para fazer jus ao papel, ele entrou na academia e um ano depois voltou a procurar a escola, quando foi, então, aceito.

As primeiras aulas foram tranquilas, Bráulio ficou de sunga mesmo. Quando o professor pediu para que ficasse nu, ele já estava ambientado. “Minha preocupação maior não foi o nu, mas em estar preparado para aguentar a dor, as cãibras, o frio, o calor. Eu tinha essa vontade de desafiar meu corpo”.

Foi aprendendo com o tempo a não tomar muito líquido perto das aulas, para não ficar indo toda hora ao banheiro, e  a cuidar da alimentação, além de um treinamento para lá de intensivo do que hoje nos falta tanto, a concentração. “É toda uma técnica”, diz o ator, com ares de especialista.

Bráulio prefere não estipular aos alunos quanto tempo vai ficar em cada pose. “Fico o máximo possível. E aí, antes de sair, aviso”.  Os intervalos entre um momento estático e outro duram entre 10 e 15 minutos, quando aproveita para se alongar e conversar com os alunos. “Às vezes, me levanto e vou ver os desenhos, nu mesmo. Outro dia um aluno me disse que eu nu sou como se estivesse de roupa”, ri.

No início, sua família estranhou, mas Bráulio conta que conseguiu convencê-los de que é um trabalho como qualquer outro. “O foco é na técnica, no respeito. Na Europa, é algo mais valorizado”. Ele está pensando em ir para lá fazer mestrado e, quem sabe, trabalhar como modelo vivo além-mar.

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